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Texto escrito para o primeiro número da Revista Organismo Parque Augusta. OPA!

Viva o comum das resistências verdes multitudinárias! Viva o Parque Augusta!

Por Natacha Rena*

O sistema conectado entre Estados e empresas do novo capitalismo pode ser também denominado Império. Diferente do capitalismo fordista, no qual a mais-valia era prioritariamente explorada do trabalho nas fábricas, atualmente, na era do capitalismo cognitivo, a expansão da exploração do capital se dá em todo o território, dentro e fora das fábricas, em toda a metrópole. Além disto, o tempo do trabalho envolvido na produção do capitalismo industrial referia-se ao tempo da jornada no qual o trabalhador estava nas fábricas. Atualmente, o tempo de expropriação do capitalismo pós-fordista imperial é todo o tempo de nossas vidas. A exploração da vida passa pela captura dos desejos e neste sentido todo um sistema simbólico abduz a subjetividade e nos torna trabalhadores e consumidores obedientes. Na sociedade contemporânea do capitalismo cognitivo, além de vermos configurar (via Estado-capital) a construção de sujeitos dóceis (próprios da sociedade disciplinar em que o controle incidia – e ainda incide – diretamente sobre os corpos), estamos imersos em práticas de controle mais sutis e flexíveis, uma tomada sobre a subjetividade que visa a captura do próprio desejo.

O Estado foi definitivamente tomado pelo capital, que agora atua de dentro dos processos políticos institucionais e por meio de mecanismos de gestão pública; são instrumentos urbanísticos neoliberalizantes que fazem parte, muitas vezes, do próprio Estatuto das Cidades e um dos exemplos é o instrumento denominado Operação Urbana Consorciada, uma espécie de Parceria Público Privada que determina as regras do jogo para o uso e a construção do espaço que pertence a um determinado território pré-definido para a utilização do instrumento urbanístico.

Mas mesmo quando não há o uso explícito destes instrumentos liberalizantes, a lógica das gestões das cidades contemporâneas, no mundo e visivelmente no Brasil dos últimos anos, seja nos governos de esquerda, seja nos governos de direita, é a lógica da cidade-empresa, da especulação imobiliária, da gentrificação (enobrecimento e expulsão dos pobres que não conseguem viver mais nas áreas valorizadas), das políticas de revitalização (substituindo vidas pobres por vidas ricas e turismo), das intervenções utilizando equipamentos culturais (museus, bibliotecas, salas de música e afins). Estas lógicas encabeçam o eixo da gentrificação de grandes regiões, principalmente nos centros das cidades que já detêm meios de transporte e serviços abundantes. Portanto, é utilizando o discurso da arte e da cultura, da melhoria do espaço, do embelezamento e da segurança que o Estado-mercado avança por toda a cidade expropriando os bens comuns. O verde urbano tem sido talvez o bem mais exposto à ameaças do mercado imobiliário.

Em todo o mundo, vide Parque Gezi em Istanbul, Gamonal na Espanha, Fica Ficus em BH, Parque Cocó em Fortaleza ou Parque Augusta em São Paulo, vemos surgir uma multidão de singularidades e grupos artísticos, de ativistas, moradores locais e vizinhos, pop de rua e comerciantes interessados em recuperar o debate político sobre a cidade e a construção, com ação direta, do ambiente que pertence às suas vidas cotidianas. A democracia representativa já não mais representa o cidadão comum e vem deixando de lado os interesses de todos para garantir o interesse do mercado que financia o Estado e suas campanhas políticas que garantem a permanência de grupos no poder. Contudo, a sociedade se rebela, e faz isto atualmente, em grande parte, resistindo coletivamente por meio de redes conectadas globalmente, nacionalmente e localmente. O espírito de multidão que encara o Império de frente e exige democracia real e o direito de ter os seus bens comuns administrados autonomamente. Estas novas organizações ativistas trazem a frescura da coleção subjetiva das diferenças e a pauta ampliada para além do direito ao verde urbano. O mais interessante é que estes movimentos são horizontais, sem lideranças definidas, e possuem uma dinâmica de articulação, que, por ser rizomática, é impossível de cooptar. Vemos o Estado-capital na tentativa desesperada de se aproximar destes movimentos para capturar a sua dinâmica de máquina de guerra. A autonomia e a autogestão é tudo o que o Estado-capital não pode suportar. Há uma explícita tentativa de controlar os movimentos multitudinários, criando-se conselhos nos quais o Estado participa ativamente. Mas os movimentos que, desde 2013, não foram capturados pelo Estado-capital se fortaleceram e ganharam redes e ruas e, principalmente, apoio popular.

A construção da subjetividade via mecanismos oficiais do poder imperial (grandes mídias) já não convence mais a sociedade com tanta facilidade, e assistimos a uma ampliação dos campos de luta pela construção do comum, seja nas ruas, seja nas redes. Não se trata somente do território verde dos parques e praças, mas também da exigência de função social para a propriedade. Pode-se detectar essa demanda nos movimentos pro habitação como o MTST; a força política dos movimentos pela mobilidade como o MPL ou o Tarifa Zero; a força estética e afetiva dos movimentos de ocupas culturais que se proliferam pelo país como o Espaço Comum Luiz Estrela em BH ou a Casa Amarela em SP. Abrindo um parênteses: muitos dizem que estes novos ocupas culturais são apenas novos squats (em modelo europeu) e espaços para jovens artistas viverem, mas sabemos que é um movimento muito maior que possui relações com o fim do esplendor do capitalismo neoliberal e a chegada de um novo mundo biopotente, mundo no qual o poder sobre a vida é substituído pelo poder da vida. Estes novos espaços do comum são habitados por jovens, crianças, artistas, ativistas, militantes de todas as ordens, idosos, comerciantes, gays, lésbicas, bis, trans, queers, e muitas outras categorias e gêneros que representam uma nova sociedade ativa e plural.

Fora da lógica dos movimentos viciados da esquerda clássica, que acredita na ideia unitária de povo, e fora da lógica do mercado que só pensa nos cidadãos como massa, a multidão é plural e atua no trabalho vivo e imaterial produzido em rede coletivamente e criativamente. Portanto, estancar a força motriz que move estes movimentos não vai ser tarefa fácil para o Estado-capital, já que o que os movem é o amor e o afeto e o próprio sentido ativo da vida. Portanto: viva a diferença incapturável da multidão e viva as resistências verdes urbanas conectadas globalmente! Viva Parque Gezi, Fica Ficus, Parque Augusta e todos os outros nós biopotentes ativando novas singularidades e construindo um novo mundo! Se queremos que esta luta seja realmente parte da construção de uma nova ontologia da multidão e da constituinte de uma nova democracia, seria bom pensarmos que a defesa por estes territórios devem passar fora da lógica do público (Estado) ou do privado (capital), ou seja, deve ser construído num espaço do comum, no qual quem decide o cotidiano de forma auto-gestionada é a própria população em exercício constante de democracia real.

Referências teóricas:

HARDT, M.; NEGRI, A. Multidão. Rio de Janeiro: Record, 2005.

HARDT, M., NEGRI, T; Commonwealth. Cambridge e Massachusets: The Belknap Press of HavardUniversity Press, 2009.

PELBART, P. P. Vida capital. Ensaios de biopolítica. Ed. Iluminuras: São Paulo. 2003.

* Professora da Escola de Arquitetura da UFMG, coordenadora do Grupo de Pesquisa do CNPQ Indisciplinar e ativista do Fica Ficus_BH.

http://www.parqueaugusta.cc/ja/revista-opa-0-1/

http://issuu.com/organismopa/docs/revistaopa.0.1

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