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Por Edésio Fernandes
Postado em seu facebook no dia 30 de outubro de 2013
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Os jornais locais de Belo Horizonte têm publicado uma série de reportagens sobre as muitas mudanças propostas para a cidade pela Prefeitura Municipal e pelo Governo do Estado, envolvendo complexas operações urbanas e compreensivos projetos de revitalização do chamado “Hipercentro”, além de diversos planos específicos para o desenvolvimento urbano de áreas na região do Aeroporto de Confins e da Lagoa dos Ingleses. Fala-se de “Cidade-Aeroporto”, fala-se em reservar o Aeroporto da Pampulha para receber preferencialmente os aviões dos inúmeros executivos estrangeiros que vão querer se localizar nessa cidade renovada e plenamente integrada no contexto internacional, uma verdadeira cidade global. Fala-se da cidade como o novo paraíso dos “start-ups”. Fala-se na construção da “Torre mais alta da América Latina”. Fala-se na venda em leilão público em breve dos direitos de construção e desenvolvimento correspondentes a milhões de metros quadrados, para recriação de um enorme percentual da cidade hoje existente – a “Nova Belo Horizonte” recentemente promovida pelos editores da Revista Veja.

Todos esses planos e projetos são acompanhados por belas e sofisticadas representações visuais indicando os resultados finais dessas intervenções do Poder Público, diretamente ou em parceria com o setor privado. São imagens preparadas pela equipe técnica da própria PBH ou por escritórios de arquitetos e urbanistas locais, nacionais e cada vez mais internacionais (da Inglaterra e da Cingapura, dentre outros) contratados pela PBH e pelo Governo do Estado, ou mesmo contratados diretamente pelo setor privado, promotores imobiliários e proprietários de terras. Usando das infinitas possibilidades da tecnologia contemporânea, tais representações visuais dos resultados dos planos e projetos uma vez completados são inegavelmente atraentes, sugerindo que Belo Horizonte estaria se transformando uma cidade afluente, ordeira, moderna. Prédios maravilhosos, torres altíssimas, construções sofisticadas, bosques a perder de conta, equipamentos públicos abundantes e áreas de lazer por todo lado: parece que Belo Horizonte estaria se transformando em uma cidade realmente internacional, com uma forte ênfase na preservação ambiental, e que poderia sem problemas ser comparada com outras cidades globais.

Mas, essas imagens têm me incomodado… e eu tenho me perguntado se tais representações visuais correspondem a realidade, ou se são meras fantasias de arquitetos e urbanistas? Mais ainda, reais ou fantasiosas, tais imagens são desejáveis?

Tentando responder a primeira pergunta – se tais representações são reais -, busco referências na minha própria experiência, a experiência de quem nasceu em BH, viveu lá por mais de metade de sua vida e, em que pese a distancia, ainda conhece bem a cidade, mantém laços de diversos tipos com a cidade, vai até lá regularmente, acompanha as muitas mudanças e, sobretudo, ainda gosta da cidade apesar do tempo vivido fora dela.

A primeira coisa que me vem a cabeça é, “onde foi mesmo que vi representações semelhantes antes”? Ah, foi em Belo Horizonte mesmo, nos mesmos jornais, e não faz muito tempo… Quem não se lembra das igualmente sedutoras imagens que davam suporte aos projetos de criação da “Linha Verde” e do “Bulevar Arrudas”? Quem não se lembra das imagens que representavam o resultado acabado de projetos urbanísticos ambiciosos como o “Alphaville”, ou a renovação da “Praça Sete de Setembro”, ou a “Praça da Savassi”? Da modernização da Avenida Antônio Carlos e da Avenida Cristiano Machado? São muitos os outros exemplos possíveis… mas, basta comparar a situação atual desses lugares com as imagens que acompanhavam os planos e projetos respectivos – para justificá-los – para ver que há um descompasso enorme entre as representações visuais e as realidades…

A verdade é que desde o tumultuado Aeroporto de Confins, a cidade está cada vez mais feia, mais poluída, mais pichada, mais degradada… Antes, a primeira impressão de quem chegava na cidade era de um aeroporto distante, mas inserido em um contexto natural ainda muito bonito e preservado (a despeito da intervenção violenta que foi a própria construção do aeroporto naquele local totalmente inadequado por razões ambientais). Mas, logo em seguida, ao chegar na área urbana a paisagem nitidamente degradada somente ficava menos precária a partir da chegada na Afonso Pena na direção do bairro “nobre” das Mangabeiras. Desde sua criação, Belo Horizonte sempre foi a cidade da desigualdade socioespacial e das periferias abandonadas, mas os bairros ocupados pelos grupos sociais mais privilegiados mantinham uma certa qualidade urbanística e ambiental. Hoje em dia, a imagem de degradação urbanística e ambiental é generalizada. Desde o momento da chegada no aeroporto, o que se vê por toda parte, especialmente como resultado das intervenções urbanísticas recentes, são inúmeros exemplos de infraestrutura urbana e equipamentos públicos de segunda categoria construídos com materiais de terceira categoria e muito rapidamente obsoletos e saturados por falta de manutenção.

Longe de ser a cidade ordeira prometida pelas atraentes representações visuais produzidas pelos técnicos municipais e/ou pelos escritórios de arquitetos e urbanistas, hoje o que se vê – e que se experimenta – por toda parte é uma cidade paralisada por uma crise profunda de transporte e mobilidade, uma cidade permanentemente engarrafada, com obras públicas mal pensadas, mal dimensionadas e mal implementadas, e que, na falta de avaliações sérias, acabam por gerar mais e mais problemas. São muitos os exemplos de viadutos mal calculados e mal construídos, obras abandonadas ou refeitas poucos meses após sua inauguração, obras pela metade, “ciclovias” improvisadas e inadequadas… O que se vê são bairros inteiros – Buritis, Belvedere, etc. – crescendo rapidamente sem qualquer articulação minimamente adequada com o sistema viário existente. Por toda parte, e agora não apenas nas áreas mais pobres da cidade, há ruas maltratadas, abandonadas mesmo, e a experiência do pedestre é de que não há uma única calçada inteira, sem buracos e sem obstáculos, na cidade toda.

Longe dos bosques verdejantes prometidos nas sofisticadas representações visuais preparadas por arquitetos e urbanistas, o que se vê são novas arvores plantadas em numero infinitamente inferior ao de arvores arrancadas em decorrência das intervenções urbanísticas. Por toda parte, mesmo nas principais ruas e avenidas, ha arvores mortas, buracos sem replantio, esqueletos de arvores, jardins abandonados…

Longe de ser essa cidade comprometida com a preservação ambiental como prometido pelas representações visuais, o que se vê é uma cidade que sofre cada vez mais dos efeitos das mudanças climáticas, mas que, ao invés de se preparar para tais impactos através de políticas preventivas e de manejo de risco, tem adotado medidas profundamente inadequadas (o Ribeirão Arrudas que o diga) que acabam por agravá-los. Uma cidade na qual a resposta do poder público aos alagamentos e transbordamentos resultantes das chuvas cada vez mais intensas e frequentes foi de que a população deveria evitar um grande número de avenidas centrais…

Nova BH? Há muito as classes médias e altas têm fugido do centro tradicional… A lista dos problemas é enorme… violência urbana… crise de saneamento…falta de áreas públicas, concentração de equipamentos públicos e comunitários… Cidade global? Fala-se repetidamente das ações culturais na “Praça da Liberdade”, mas, além de ser uma das poucas áreas públicas da cidade, essa praça tem sido cada vez mais descaracterizada… sem mencionar que apenas 0.4% da população frequenta museus… além disso, não consigo pensar em nenhuma “cidade global” onde a zona de prostituição seja na “área nobre” da principal avenida da cidade…

Para piorar, muito longe das imagens de prédios sofisticados que aparecem nas representações visuais que acompanham os planos e projetos de intervenção urbanística, o que salta aos olhos por toda parte – e não mais apenas nos bairros segregados – é a péssima qualidade arquitetônica, construtiva, urbanística e ambiental da cidade construída pelo setor privado, processo esse agravado pela verticalização extremada da cidade nas últimas décadas.

Como resultado, pouco a pouco a elite local foi se mudando para a cidade do lado, mas não levou muito tempo para que também lá todos ficassem engarrafados em seus veículos de vidros escurecidos – no caminho entre condomínios fechados, escolas privadas, clube sociais exclusivos e shopping centers. Também nesse novo bairro rico da cidade do lado, surgiu um verdadeiro paredão de prédios enormes – a ponto de pretenderem superar a linha tombada do que resta da Serra do Curral – que têm roubado ventilação, iluminação e vista uns dos outros. As áreas verdes locais – que tinham sido levadas em conta quando do calculo dos preços gigantescos dos apartamentos – têm sido desmatadas rapidamente. Comprar leite para muitos requer ir de carro até o shopping center por falta de opções adequadas de comércio local. Em que pesem os preços astronômicos dos imóveis, também nesse bairro rico da cidade do lado prevalece a mesma péssima qualidade arquitetônica, urbanística e ambiental – cujo principal símbolo parece ser a horrível torre, mal concebida e mal construída, que domina a paisagem. Ou então a implosão prevista para muito em breve do sistema de coleta e tratamento de esgoto desse bairro, que já esta no limite de sua capacidade…

Deve ser por isso que o próprio Prefeito de Belo Horizonte fugiu da cidade e foi morar no isolamento de um bairro fechado de outro município metropolitano, onde (ainda) só se avistam montanhas… Aliás, diga-se de passagem, parece que os prefeitos de Belo Horizonte não gostam da cidade, pois não são vistos caminhando pela cidade, usando transporte público, participando de eventos que não os oficiais, em lançamentos de livros, shows, vernissages, festas… Pior, parece que grande parte da classe média local mal espera chegar a tarde da 6ª feira para também poder fugir da cidade para suas casas de campo, ou de amigos e familiares, em outros municípios metropolitanos…

Essas verdadeiras imagens da desolação real claramente indicam que as representações visuais tão atraentes e sofisticadas que os arquitetos e urbanistas têm preparado por encomenda dos governos municipal e estadual, bem como de promotores imobiliários e de proprietários de terras, são meras fantasias, e não têm qualquer compromisso com as realidades urbanísticas, ambientais e sociais da cidade.

O que me leva a minha segunda pergunta, reais ou fantasiosas, essas imagens são desejáveis? São imagens que indicam cenários a que se deve aspirar?

Não há como responder a essa pergunta sem qualificá-la: desejáveis, para quem? Quem tem ganhado e quem tem perdido com a manutenção e reprodução desse modelo de crescimento urbano promovido pela administração pública de Belo Horizonte em parceria cada vez mais íntima com o setor privado?

Vi recentemente diversos projetos muito sofisticados para diversas partes da cidade, sem que uma única referência fosse feita a necessidade de provisão de habitação de interesse social… Vi verdadeiros projetos megalomaníacos que pretendem gerar novos bairros inteiros e mesmo novas cidades dentro da cidade, mas que não reservaram um só lote para habitação de interesse social – onde vão morar os mais pobres, então? Nas favelas, sempre invisibilizadas? Ou nas periferias metropolitanas cada vez mais distantes, tendo que arcar com os custos cada vez maiores do transporte público ineficiente?

Seriam essas meras fantasias de arquitetos e urbanistas inspiradas pelas ideias da moda, e/ou importadas de outros contextos sem uma avaliação critica por técnicos que não saem de suas pranchetas e, sobretudo quando são de fora, não conhecem as dinâmicas socioeconômicas locais, não falam com os diversos atores sociopolíticos locais, e somente pensam nos termos das demandas dos seus clientes? Mas, e quando esses urbanistas conhecem, ou deveriam conhecer as realidades locais, como no caso dos planos e projetos formulados pelos técnicos da PBH?

O fato é que, produzidas seja lá por quem for, essas fantasias não são inofensivas… tais representações visuais que dão suporte aos planos e projetos de intervenção urbanística deveriam ser vistas não apenas como propaganda, mas como propaganda enganosa – vendendo gato por lebre – com todas as implicações desse conceito jurídico. Conscientemente ou não, através dessas imagens atraentes que negam as realidades de produção da cidade, esses arquitetos e urbanistas têm fomentado as dinâmicas cada vez mais agressivas de mercados imobiliários especulativos, excludentes, segregadores e poluidores, legitimando assim a ampla mercantilização da cidade que tem sido promovida pela administração pública de Belo Horizonte: espaços públicos privatizados, ruas vendidas, praças fechadas, áreas verdes desmatadas, favelas removidas a pretexto de integração, dezenas de milhares de pessoas removidas…

O pior caso para mim foi o das representações visuais tão atraentes que dão suporte ao projeto da “Torre mais alta da América Latina” (há coisa mais brega?) e que, de maneira especialmente vergonhosa, já assume a expulsão dos pobres que vivem ha décadas nas imediações da intervenção proposta.

Essas representações visuais enganosas escondem o fato de que Belo Horizonte falhou completamente na integração socioespacial dos mais pobres, e na regularização das favelas históricas – formadas antes mesmo da fundação da cidade – tendo até hoje índices injustificáveis de pobreza infantil. Uma cidade que historicamente não deu conta de cuidar dos mais vulneráveis, que o diga a população de rua.

São imagens que ignoram a ampla falta de capacidade de ação administrativa do governo local – que não dá conta de nem de enfrentar os desafios da dengue, e fica por aí vendendo a propaganda enganosa da cidade global. Vendendo em leilão a noção elitista da “Nova BH”, essas são representações que confirmam um modelo artificial e profundamente especulativo no qual as mais-valias urbanísticas produzidas pela ação coletiva são apropriadas pelos interesses privados, e valores de troca são infinitamente superiores a quaisquer valores de uso.

Por conta de tais processos totalmente artificiais o metro quadrado na cidade pode até ser mais alto do que o de Miami, mas ironicamente é exatamente por conta da baixa qualidade urbanística, ambiental e social dessa cidade excludente, poluída e cada vez mais feia que aqueles que podem têm escapado cada vez mais… para Miami.

Aeroportos exclusivos para os empresários internacionais? Serão os mesmos que ha pouco tempo decretaram que Belo Horizonte é uma cidade “boring”? Ainda que as belas representações dos arquitetos e urbanistas pareçam indicar que Belo Horizonte é uma cidade moderna e internacional, a verdade é que BH está na contramão dos processos identificados em diversas cidades pelo mundo afora, cidades que têm pelo menos tentado enfrentar seus problemas urbanos, ambientais e sociais para construir uma outra ordem e uma outra qualidade: restrições a carros, investimentos em transporte público de qualidade e em zonas de pedestres, em politicas ambientais sérias, na preservação do patrimônio cultural. Algumas dentre elas – a atual reputação de Medellín não é injustificada – tem tentado afirmar a noção da função socioambiental da propriedade e da cidade, inclusive pela integração das periferias e assentamentos informais e pela produção de habitação de interesse social, pelo investimento na vida dos bairros, em espaços públicos, em equipamentos públicos e comunitários, em áreas verdes, e em lugares de encontro e troca.

O que passou com Belo Horizonte? Outro dia mesmo era cidade-referência, o OP era referência internacional, os refeitórios populares eram paradigmas… será que nada sobrou dos 15 anos de administração popular? A cidade que já não mais merece a alcunha de “Belo” Horizonte, “Cidade Jardim” já não é mais, “Cidade Sanatório” menos ainda.. Será que Belo Horizonte está fadada a se tornar mera “cidade-mercadoria”?

Acorde desse sonho ruim, BH! A verdade é que, em que pesem as imagens-propagandas dos arquitetos e urbanistas, você não está com essa bola toda…

Acorde e reconheça o muito que ainda há de bom na cidade, especialmente a riqueza da cultura e das relações humanas, e envolva a participação da população na construção de uma outra ordem urbana, ambiental e social que seja profundamente marcada pela noção do direito coletivo a cidade.

Nesse contexto, longe de nos deixarmos seduzir pela propagada enganosa expressa nas representações visuais aparentemente atraentes e sofisticadas que nos vendem mais do mesmo – o mesmo que nos faz tão mal -, cabe destacar que não estou falando aqui de negar a importância do sonho, da utopia mesmo, e da criatividade dos arquitetos e urbanistas: quando informadas pela realidade e comprometidas com sua transformação a luz dos interesses dos moradores da cidade, as representações visuais podem contar outras histórias, histórias de cenários possíveis pelos quais devemos lutar.

Certamente esse é o caso das imagens que revelam os planos e projetos de ação comunitária que têm levado a criação de diversas ocupações urbanas em Belo Horizonte e redondezas, como dentre outras a Ocupação Eliana Silva e a Ocupação Emanuel Guarani Kaiowá. Dando forma e expressão visual a esse encontro entre sonho e realidade, os arquitetos e urbanistas envolvidos merecem todo o nosso respeito – e o pleno reconhecimento da Bienal de Arquitetura em São Paulo. Muito mais do que os poderosos escritórios nacionais e internacionais, eles entenderam no contexto de Belo Horizonte a noção do direito a cidade e a máxima Lefebvreana de que “é preciso sonhar com o impossível para apreender todo o campo do possível”.

E ao fazê-lo, estão devolvendo beleza a esse horizonte tão maltratado.