Select Page

O Seminário Internacional Faces da Resistência ocorreu entre os dias 14 e 16 de abril, na cidade do Recife, berço de um dos movimentos urbanos mais expressivos do país, o #OcupeEstelita. O objetivo do seminário foi o de “repensar as formas de resistência que têm emergido à margem de sindicatos, partidos e outras instituições formais e […] discutir tais formas de resistência a partir de campos temáticos: arte, cidade e mídia, eixos centrais na conversão das energias contestadoras em ações com visibilidade no espaço público” [https://www.facebook.com/events/357448134444715/]

A presença nas atividades do evento, em palestras tanto do primeiro como do último dia, permitiu elaborar uma síntese de partes das abordagens realizadas por Raquel Rolnik (USP/FAU) – itens 1, 2, 3 e 4 –, Ivana Bentes (UFRJ/Minc) – itens 5 e 6 – e Maria Eduarda da Mata Rocha (UFPE/PPGS) – item 7.

1. A terra e, mais especificamente, a terra urbana tratada como ativo fundamental do circuito neoliberal vem, sistematicamente, contribuindo para a destituição dos espaços comuns e da comunalidade em função de seu posicionamento como geradora de renda. Como resultante das práticas derivadas dessa lógica, é importante que se ressalte a faceta colonizadora dos espaços e das formas de viver. Em outras palavras, é importante que se compreenda que não estamos, apenas, frente a uma nova forma de ocupação dos espaços, mas a uma nova forma de governar a cidade. Forma que implica na união entre o poder político e o econômico atuando e moldando a urbes de acordo com o desejo das elites transnacionais, portadoras de uma linguagem também transnacional da produção. Uma das consequência dessa união (política e econômica) são as constantes repetições de artefatos arquitetônicos em distintas cidades do mundo.

2. A extensão da mercantilização dos espaços das cidades afeta diretamente o habitat já que suas fronteiras avançam sobre as espacialidades construídas pelas camadas mais populares. Nesses momentos, o funcionamento autoritário do poder público transforma a participação popular – como aquela estruturada nos conselhos – em uma comédia. Entretanto, a implementação desse modelo não ocorre sem resistências, seja no âmbito local e territorial, seja nas agendas amplas e mais globalizadas.

3. No Brasil, torna-se fundamental repensar e restaurar os bens comuns, principalmente quando se verifica que os espaços públicos são eminentemente as sobras das intervenções privadas. Isso implica dizer que o planejamento urbano, no país, segue uma opção privatista. É no contraponto dessa maneira de se pensar as cidades que as ocupações se colocam em oposição à democracia do capital e da desconstituição do Estado. Foi nessa esteira que se levantaram as vozes de junho pelas quais os espaços públicos apareceram não apenas como objeto de reinvindicação ou cenário, mas como o lugar mesmo da rebelião contemporânea. Como guerra dos lugares. Como guerra pelos lugares. Como ocupação.

4. Os movimentos de ocupação surgem como lugares de experimentação de alternativas e futuros possíveis. Mais que soluções prontas e únicas representam processos de liberação dos espaços e foco de resistência à lógica privatista e homogeneizante.

5. Em função do novo momento e das novas formas de contestação prática e discursiva das estruturas hegemônicas, o midiativismo aparece e produz uma linguagem não formalizada que não se baseia ou se encontra na esquerda clássica. Ele torna-se um campo diferencial da produção de linguagem – cognitiva e ativista – em contraposição aos da racionalidade e das palavras de ordem. Além disso, consideram a estética e o afeto na formação das novas articulações sociais.

6. A linguagem traz processos que se acumulam e que criam, hoje, um remix como consequência dos bancos de dados apropriados e apropriáveis. O midiativismo impulsiona as coisas de um estado de informação para um estado de ação. As redes (de mídia livre) tornam-se, nesse ambiente, possibilidades da experimentação de novas formas de cogestão já que entram na disputa pelo campo simbólico e político.

7. #OcupeEstelita é marcado por uma nova dimensão criada através de uma proximidade física e corpórea. Coloca, de modo mais direto, novas éticas baseadas na consideração e na constituição de novas formas de estar junto e de novas experiências diárias de confrontação. Desse modo, a sociedade é pensada de forma mais abrangente e construída no cotidiano dos acontecimentos, contrapondo-se, assim, à lógica privatista.