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berebere

Em outubro de 2013, pesquisadores do Grupo Indisciplinar estiveram em Bogotá numa Viagem de Estudos e fizeram diversas visitas a Universidades, Escritórios de Arquitetura, Museus, Centros Culturais, Centros Comunitários. Também participaram de workshops e debates sobre Cultura e Gentrificação, Artivismo e Arquitetura Social.

Durante esta viagem realizamos algumas entrevistas com arquitetos e artistas que possuem experiência em ações envolvendo Arte, Design, Arquitetura, Urbanismo e Política.

Publicamos abaixo uma entrevista realizada com os artivistas colombianos Andrés Burbano Gabriel Zea.

Burbano explora a relação entre arte, tecnologia e ciência por diferentes perspectivas: como investigador, como artista e através de projetos colaborativos no campo da arte digital e é professor na Universidad de Los Andes.

Gabriel Zea é colombiano, integrante do coletivo Martinez-Zea (com Camilo Martinez). Também é professor da Universidad de Los Andes, Bogotá e trabalha com tecnologias livres em projetos que envolvem colaboração com pessoas e grupos provenientes de diversos campos da arte e fora dela. Seu trabalho se baseia em processos de apropriação e experimentação com a tecnologia, que implicam no desenvolvimento de ferramentas próprias de software ou hardware, inseridos em diferentes contextos de difusão ou interação.

Gabriel Zea estará em Belo Horizonte para ofertar no evento Cartografias Biopotentes nos dias 05, 06, 07 e 08 de fevereiro. Para maiores informações conferir nas fanpagens do Indisciplinar e do Cartografias Biopotentes.

Em 2010, Gabriel Zea já esteve realizando uma residência artística no JACA desenvolvendo trabalhos de mapeamentos dentro de um projeto denominado BereBere. Também realizamos naquela época um workshop na Favela da Serra junto ao ASAS.

No ano seguinte, em 2011,  Gabriel Zea e seu parceiro de trabalho Camilo Martinez participaram da Mostra de Design com palestras e workshops na Favela da Serra novamente.

 

A: Eu sou Andrés Burbano. Trabalho com dferentes mídias e projetos diversos que envolvem pesquisa e criatividade. A cidade é um componente importante de alguns dos projetos, o urbano, as relações sociais que a cidade tem como palco. Eu conheci G.Z. trabalhando em um projeto que tem a ver com isso, o projeto Berebere.

G: Eu sou Gabriel Zea, trabalho com um amigo Camilo Martinez, temos um coletivo de artistas há sete, oito anos e trabalhamos com mídias e tecnologia. Tentamos perceber a tecnologia desde o seu uso e de todos os problemas políticos que estão ao redor do assunto da proposta tecnológica. Também trabalhamos um pouco com as cidades, sobretudo na primeira parte de nosso trabalho, mas agora estamos explorando outras histórias.

I: Gabriel, vc trabalha com Camilo, fazem parte de um grupo. E você, Andrés? É um pesquisador independente? Trabalha com alguma rede específica de colaboradores?

A: Eu trabalho com a Universidade, na Universidad de Los Andes, também trabalho com pesquisa na universidade da Califórnia, uma pesquisa de antropologia visual. E, dependendo do projeto, eu trabalho com diferentes grupo, de acordo com a natureza do projeto.

I: Estamos bastante interessados na formação dessas redes. O compartilhamento de informações, a criação de projetos comuns com diferentes grupos de artistas. Vocês trabalham dessa maneira?

G: Para nós, da forma que trabalho com Camilo, estamos trabalhando sempre com outras pessoas. Há muitos poucos trabalhos nossos que sejam apenas Camilo Martinez e Gabriel Zea. Geralmente trabalhamos com outros artistas ou com engenheiros, principalmente pessoas que trabalham com softwares livres, um tipo de ferramenta que utilizamos muito em nossos trabalhos. Assim vamos criando essas redes. Às vezes trabalhamos com grupos envolvidos com ativismo, que nos procuram por causa do nosso saber tecnológico. Parte da nossa maneira de trabalhar é colaborar com outras pessoas, (…) fazer criações colectivas (…)

I: E com a Universidade? Trabalham também com a universidade em algum contexto ou não?

G: Camilo e eu trabalhamos também na Universidade, somos professores. Eu também trabalho na Universidad de Los Andes, mas normalmente os nossos projetos de investigação não estão tão vinculados diretamente ao contexto universitário. Utilizamos alguns recursos da universidade mas ela não faz parte realmente dos projetos. Não é que estejamos totalmente afastados da academia. Nos últimos anos temos temos estado bastante ligados a processos acadêmicos e começamos a participar de eventos acadêmicos (…) fomos dois anos ao Fórum Latino Americano. (…) Trata -se de ver como as coisas funcionam, nós viemos muito do mundo do “fazer”, de fazer coisas, e agora estamos nos colocando essa tarefa de escrever papers, artigos, produzir material acadêmico sobre os nossos projetos.

I: Nos interessam muito as ações que se ligam ao ativismo. Como surge a colaboração com movimentos sociais e com o ativismo? Como vocês trabalham isso? É alguma coisa subliminar, tem a ver com hackeamento, são coisas que envolvem os mecanismos de infraestruturas urbanas da cidade?

G: Para o nosso coletivo é super importante entender como funciona a tecnologia. E tentamos ver a tec não como uma caixa preta mas, ao invés disso, abrir essa caixa e ver, por um lado, como são os cabos, como funcionam tecnicamente os dispositivos tecnológicos, o que, a partir desse lado técnico, nos permite ver também como essa tecnologia é apropriada pelas pessoas. E ai começamos a nos misturar com o terreno da plítica da tecnologia. Nossa relação com o ativismo, por causa dessa maneira de trabalhar, acaba sendo muito natural, pois tentamos ser não apenas consumidores da tecnologia, mas também seus produtores. E produtores não apenas do ponto de vista de criarmos tecnologias mas também de nos reapropriarmos dela. No berebere, por exemplo, utilizamos muitos softwares, muito hardware; mas o que fizemos realmente, a capa técnica do projeto, foi apropriar e reconectar várias coisas que já existem por ai. Essa é uma maneira de trabalhar que eu e o Camilo temos.

I: Por exemplo, acho que o Andrés pode falar um pouco sobre a origem do Berebere.

A: O Berebere foi um projeto de colaboração com amigos de Medellin, como Alejandro Duque e outros, que sempre estão à frente, um grupo muio interessante. Tínhamos muito interesse em redes wifi. Depois disso, das redes wifi, começamos a trabalhar, tanto em Medellin quanto em bogotá, a trabalhar com mapeamento dessas redes inalambricas, e isso foi como uma iluminação: como é possível introduzir em um espaço geográfico a materialidade da rede, a visualização. Então, começamos a construir um dispositivo para esse mapeamento. Gabriel fez uma máquina muito grande, um “desktop”, que era móvel, que estimulava a interação social: as pessoas na rua vinham perguntar a respeito, ofereciam ajuda… A interação social era muito importante nesse projeto. E depois, o mais importante foi a construção do Berebere mesmo e o mapeamento na cidade de medellin. O Berebere foi parte de um evento artístico, encontro em Medellin, muito importante. Estávamos muito interessados em novas formas de fazer arte, pesquisa, ativismo também. E foi uma oportunidade incrível de fazer o mapeamento, conhecer melhor a cidade, conhecer os limites do que podíamos fazer. Queríamos também mapear os campos eletromagnéticos, o que não era tão simples de ser feito. E acho que a interação social, os niveis de pessoas envolvidas, foi o mais interessante do projeto. Nós fazíamos o mapeamento; Gabriel e Camilo estavam com a parte mais técnica, e também os amigos de Medellin nos ajudavam com os trajetos: ir de carro, ir caminhando, experimentar a rua, isso tudo era muito interessante (…) a interação com as outras pessoas alcançadas pelo evento, estar no centro da cidade muito próximos de outros projetos similares. Me lembro de um projeto no centro em um bar que estava ligado à prostituição, bar de encontro, eu acho, posso procurar para vocês, pois foi muito interessante. Os projetos de coletivos têm também o problema que são como flores: florescem por um tempo curto e depois por razões diferentes, porque tem muitas pessoas envolvidas, é difícil manter a coisa funcionando, ter continuidade. Manter o Berebere foi um pouco difícil, por causa da comunicação do grupo, etc, mas foi incrível. Eu, pessoalmente, estou mais interessado no aspecto social e sempre o que eu busco e tentar atravessar diferentes grupos sociais. Por exemplo, eu estive trabalhando com Camilo e Gabriel em um projeto de antenas, de hacking de antenas de televisão. A gente partia de um hacklab, um pessoal que queria hackear antenas, mas tínhamos a oportunidade de ir à universidade e testar a performance das antenas com um cientista de sinais. E esse tipo de interação é o que me interessa mais: os problemas não afetam apenas um grupo social, ou de artistas, de acadêmicos, de ativistas, mas misturam esses grupos. E nessa mistura eu encontro um valor muito grande.

I: Fale um pouco mais desse projeto, das antenas na escola. Nesse o Alejandro Araque estava, não?

A: Esse foi o projeto prévio, o projeto semente de um projeto maior. Começamos trabalhando numa rede que se chamava Inalambrica D.C., de distrito capital. Hackeávamos esse tipo de antena e apontávamos a rede wifi para espaços públicos, e assim tivemos quatro novos parques na cidade que tinham wifi livre a aberto. Parte desse conhecimento se desenvolveu dentro de um projeto muito maior, sobre o qual o Gabriel pode falar um pouco.

G: Esse projeto foi um projeto muito interessante, mas muito complexo ao mesmo tempo. Se tratava de criar alguns pontos de acesso à internet em algumas partes da cidade, para ir tentando criar uma rede que abrangesse o povoado inteiro. Era um povoado pequeno, mas ecnicamente é muito complexo. Instalávamos essa infraestrutura para que as pessoas do povoado pudessem utiliza-la para dar suporte a uma série de ações voltadas à memória do lugar, interagir com pessoas de fora do povoado… Além disto, esse povoado é muito importante para a memória da Colômbia, porque foi onde surgiu a rádio educativa, a rádio ciutadense. Depois de uns 40 anos a rádio acabou, e o povoado ficou isolado até que há uns sete anos, mais ou menos, a Universidade Internacional abriu uma sede lá. E ai é que nós entramos com o projeto, desde a arte começamos a propor coisas utilizando a tecnologia para se veicular à vida do povoado. Foi um projeto bastante extenso, durou cerca de três anos e meio e não terminou tão bem, por problemas institucionais. Mas por um tempo conseguimos ter uma rede bastante estável e grande, que não cobriu todo o povoado, mas uma boa parte. E durante todo esse tempo fazíamos ações pequenas nos fins de semanas. Uma dessas foi uma oficina de antenas inalâmbricas. Convidamos os jovens às praças do lugar e, enquanto explicávamos como as antenas funcionavam, íamos comendo uns pêssegos em lata, para depois utilizarmos as latas para construir as antenas. Daí usamos as antenas para fazer uma transmissão de áudio enre duas praças dos povoados. Numa praça colocamos um cantor tradicional, e na outra a banda juvenil. O cantor cantava de um lado, e, do outro lado, lhe respondia a banda. Isso tudo foi transmitido pela internet, pela rede que montamos.

A: Esse projeto foi muito importante também pela dimensão das pessoas que estavam articuladas a eles. Uma pessoa é o Alejandro Araque, uma pessoa que era do lugar, conhecia pessoas do povoado, a gente trabalhava muito perto deles. Isso tem um valor incrível, porque não éramos um grupo totalmente de fora, com um conhecimento turístico do lugar, mas um projeto de dentro. Isso também facilitava muito as questões de comunicação também, o que é muito mais difícil quando você é completamente de fora do contexto. Foi um projeto realmente incrível, que infelizmente não funcionou bem no final, mas foi um processo incrível.

I: Temos interesse em entender uma coisa que é associada a outra: a questão das suas pesquisas em tecnologia estarem sempre explorando a alta e a baixa tecnologia, o high tech e o low tech, muitas vezes com comunidades ou territórios onde nem há internet, como foi o caso do JACA, do Jardim Canadá. Como avaliam isso, associando ao fato de vocês virem de um país, região, ou continente considerado “em desenvolvimento”, “subdesenvolvido”. Como vocês vêem essa questão do low tech relacionado à América Latina? Existe alguma relação?

A: É uma pergunta muito boa. E o que eu penso é que não é importante associar a tecnologia em termos de alta ou baixa, mas sim uma questão de profundidade. Quão profundamente você pode se apropriar de uma tecnologia, idenpendentemente dela ser alta, média, ou baixa.

I: Como se o objetivo fosse mais importante…

A: Exatamente. Se você tem acesso a uma tecnologia que é muito gostosa, mas que permite a você ter algum conhecimento, por que não? Se você não tiver isso, você tem algumas coisas que podem ser feitas hackeando. Então, o importante é a profundidade com a qual você é capaz de trabalhar com tecnologia.

I: E o que você chama de profundidade, nesse caso?

A: Uma tecnologia como o wifi, por exemplo, tem uma complexidade muito grande em termos de acesso, comunicacão, em termos de sinal. Você pode simplesmente conectar alguns cabos e emitir esse sinal, e saber que ali existe algo. Mas tem a possibilidade também de compreender e fazer com que a ferramenta funcione melhor. E dai, o que se pode fazer com isso? Pode fazer uma rede inalâmbrica, pública, aberta? Isso dá uma dimensão de profundidade, de impacto da tecnologia na sociedade que é interessante. Quão longe se pode chegar com isso? E com o próprio conhecimento da ferramente, pois sem esse conhecimento é difícil fazer qualquer coisa. Mas o que pode ser feito?

G: O assunto do alto e do baixo na tecnologia, tem muito a ver com o contexto, de onde estamos olhando. Uma ferramenta tecnológica é qualquer coisa. Um lápis é uma ferramenta tecnológica que pode ser tão complexa quanto o wireless, dependendo do contexto. A questaão é que a América Latina se consolida como um lugar de uso da tecnologia, e não de desenvolvimento tecnológico. Não é tanto o caso no Brasil, que tem indústrias muito mais avançadas do que a Colômbia. A geração por exemplo dos meus avôs, a geração do avô do Camilo, que foi um personagem incrível, que trabalhou com câmeras de cinema, com transmissão de rádio, voando… Acho que essa era uma geração muito inquieta, que estava fazendo coisas o tempo todo, que estava produzindo, assimilando tecnologia. Reinterpretavam o que vinha de fora com as ferramentas que tivessem disponíveis. O conceito de hacking estava super presente nesses processos. Então, não é que a América Latina não produza tecnologia, mas que tudo depende do lugar de onde de olhe.

I: Uma coisa que também queremos investigar aqui, pensando na questão das tecnologias e cidades, é que nós estamos lendo muitos textos que apresentam as redes de tecnologia digital como uma nova camada de infraestrutura urbana, comparando-as às camadas tradicionais de água, luz, esgoto. Só que, na maior parte das vezes, essa rede não é pública. Os serviços tradicionais, mesmo quando são pagos, se parte do orçamento que o acesso tem que ser garantido a todos. Isso ainda nnao acontece com a tecnologia. Gostaria que falassem um pouco sobre como vocês acham que isso repercute na exeperiência das cidades, no alcance que as pessoas tem da tecnologia e nas relações que isso possibilita entre tecnologia e espaço.

(fim da 1a parte: 27:05 mins)

A: A pergunta sobre as redes de tecnologia como novas camadas de infraestrutura que fazem parte do cotidiano urbano é uma das perguntas mais importantes da atualidade, porque a resposta é muito complexa. Dependendo de quão perto ou longe esteja a noção de instituições e serviços públicos e da implementação tecnológica que conseguem efetivar. A web, por exemlo, nasce de uma série de cientistas que queriam compartilhar papers e artigos científicos. É pública, e tem um impacto público incrível, mas a infraestrutura de cabos e antenas não é pública, e muito menos os aparelhos que permitem acessá-la, os computadores.  A noção de serviço públco, as instituições públicas estão sempre atrasadas com relação ao desenvolvimento e à implementação de tecnologias. É muito difícil então, fazer com que o sistema público esteja esteja realmente alerta para o que está acontecendo e para a necessidade de capturar essas transformações como serviços públicos. E o problema é que, a Colômbia, por exemplo, é o 3º país com mais recursos hidricos; mas 40% da população não tem acesso à água potável. Um exemplo dramático são os povoados que vivem às margens do Rio Prata, um dos rios com maior vazão do mundo, muitos deles não tem água potável. A pergunta é: eles precisam de rede, hoje? E a resposta é sim, também. Mas é uma nova camada, um novo nível de necessidade que não se sabe como pode ser suprida. E por isso a situação na Colômbia, na América Latina, é um paradoxo.

G: Uma diferença grande na noção da diferença entre a internet e outros serviços públicos, como água, é que ninguém precisa de aulas para aprender a tomar água. Se abre a torneira e a água sai. Com a tecnologia, é preciso aprender a utilizá-la, e ai estamos falando de mais uma necessidade, que é a educacão. E sim, há políticas e algumas pequenas iniciativas de “alfabetização digital”, que se propõem a ensinar as pessoas a utilizar um computadores. Mas eu penso que esses programas, em geral, têm problemas muito sérios, principalmente por causa dos vínculos que costumam ter com empresas de tecnologia. Por exemplo: não se ensina a produzir um documento de texto, se ensina a utilizar word. Que é apenas uma ferramenta, há muitas outras, como o open office, por exemplo. Assim, as pessoas se tornam dependentes de ferramentas específicas, se tornam suas escravas. Isso, para mim, é  problemático. Para se entender a tecnologia como serviço público, se deve abordá-la desde a questão educativa, para que as pessoas aprendam a utilizá-la para o que realmente  precisam, e não apenas da forma que interessa às empresas. É um problema muito complexo, que tem vários níveis de complexidade. Mas é claro, de forma geral, me parece muito bom que uma cidade ofereça como serviço público a conectividade.

A: É uma briga que o público corre um grande risco de perder. Por exemplo, na Colômbia a telefonia fixa era pública, a telefonia celular já surge toda privada, e o esquema é complexo: como é que o público vai tomar para si a telefonia celular como serviço público? É preciso fazer isso ou não? E isso dos telefones celulares é só um dos níveis, só uma das camadas que integram a conectividade.

I: Nós falamos muito de público e privado, e uma discussão talvez mais avançada na contemporaneidade seria abandonarmos a questão do público e privado e começarmos a pensar no comum. Porque quando pensamos em público e privado é como se fossem duas faces da mesma moeda. E nos interessa muito pensar o que seria uma sociedade onde essas estruturas, esses dispositivos fizessem parte do comum, e não somente do público ou do privado. O que vocês pensam sobre isso? Vocês tem discutido essa questão mais filosófica no campo da tecnologia?

A: Acho que a ideia do commons é uma alternativa para responder à pergunta. Porque a pergunta realmente é um buraco negro: é preciso desenvolver mais o público ou o privado, mais o privado ou o público? Sem contar que por trás do público há sempre o problema do serviço público, e aí a ideia do commons é muito interessante.

I: Porque esse exemplo que vocês deram da criação da rede nas escolas em Medellin, é uma tentativa do público, está fora do público ou do privado.

A: E que combina níveis dos dois.

G: Isso é algo que pensamos em nosso trabalho há muito tempo. Mas agora está acontecendo algo muito próximo de nós: o Equador, com o Michael Bawens, da p2p foundation estão discutindo um documento para que o Equador se torne o país ligado a essa idéia dos commons. E isso é muito interessante.

A: Sim, a nova constituição do Equador é um fenômeno. Um documentário que eu gostaria de fazer seria pegar as duas últimas décadas na América Latina e ver o que mudou nas constituições dos países. A Colômbia a reformou em 1991, com mudanças muito importantes, a Venezuela, a Bolívia.

I: Sim, a Bolívia, com o Novo Constitucionalismo, incorporando o pensamento indígena…

A: E no Equador a idéia de que não são 3 poderes, são 4. O poder popular é considerado. Não sei exatamente quanto, mas o poder da base é considerado um poder do país, e eles procuram buscar o “bem-viver”, que é diferente de viver bem, e diferente do progresso, da ideia de desenvolvimento. Por que o desenvolvimento é para quem? Quem se beneficia desse desenvolvimento? A informacão que temos aqui não é muito profunda.

I: No Brasil estamos passando por um processo de aprovar no Senado o marco legal da internet. Que também é importante nesse sentido, de você ter uma liberdade de uso garantida. Isso tudo também tem a ver com as discussões da América Latina como um continente potencialmente rebelde com relação ao fornecimento dessas tecnologias pelos EUA, por exemplo.

A: A Dilma teve esses dias uma confrontação com o Obama…

I: Sim, ontem na ONU só se falou disso.

A: E é muito interessante. Os países europeus, por exemplo, ficam cegos com relação a essa discussão.

I: Vocês estão acompanhando essa nova rede? Eu li um artigo estes dias falando algo sobre uma nova rede que os Brics estão construindo, um novo cabo para a internet não passando mais pela Europa e pelos EUA…

G: Há um assunto relacionado aos commons, que é interessante pensar que para que essa ideia de acervo comum funcione, é preciso acabar com um problema muito sério que temos agora que é o controle dos meios de produção. A internet pode passar a ter acesso público, como a água, mas se alguém tem o controle dos meios de produção, continua a dualidade do público e do privado. E isso passa muito pela tecnologia, porque, mesmo que não se perceba, se usa a tecnologia para produzir o tempo todo. E tudo hoje é produzir: entrar no facebook é produzir. A questão é: quem é beneficiado? Então para termos esse mundo do comum, para que possamos sonhar com esse mundo, precisamos também de ter o controle dessas ferramentas: software, hardware. Precisamos nos aprofundar nessa caixa preta e desenvolver essa relação que temos com a tecnologia desde que o chip sai da fábrica, desde o momento em que se pensa. Mas é claro que se trata de uma mudança muito grande. É interessante entender como pequenos grupos vem atuando nesse espaço através dos hacklabs, dos hackspaces, gente que se reune em torno de vários assuntos, em torno da ideia de se fazer coisas. Temos ai uma ruptura muito grande em termos de como se entende essa relação com os meios de produção que tem um pouco a ver com essa ideia dos commons. Então eu acho que há luzes, que há um caminho. O Equador é um país cujo governo vem criando inciativas interessantes, tentando implantar processos desse tipo desde cima.

I: Vocês tem nomes de pessoas no Equador que deveríamos investigar?

G: Daniel Vázques da Flok Society,  Isaac Hacksimov

I: E não é a toa que tenham recebido o Assange em sua embaixada em Londres? O que vocês pensam disso?

A: Uma coisa que é engraçada é que estivemos esse ano de 2013 no Fórum Latino Americano e um amigo mexicano anunciou: “e a última sessão do Fórum Latino Americano acontecerá no Reino Unido, na embaixada do Equador”, que era a fala do Assange. E foi incrível, como o Equador hoje em dia planta essas forças. Como uma república pequena, da America Latina, consegue, com argumentos, fazer algo assim no Reino Unido.

I: Que parecem micro políticas mas não são?

A: Não são. E o que é mais importante é que vai se criando uma comunidade de estudos desses fenômenos, que passa pelo Equador, pela Colômbia, etc… Eu, por exemplo, gostaria muito de saber o que aconteceu no Brasil com o Gilberto Gil como ministro da cultura. Venho procurando, procurando…

I: Estamos estudando isso, com os pontos de cultura…

A: a casa da cultura digital, que interessante… E não há tanta informação boa, sistematizada, sobre o impacto desse momento…

I: Com certeza, as manifestações no Brasil vem também da alimentação desses pontos de cultura e de outros processos de distribuição do governo Lula.

A: E o que acontece, isso é importante para nós aqui, agora. Mas, daqui a 5 pode não ser. Então se não existe uma sistematização de informação e uma comunicação em rede, isso se perde.

I: Celio Turino, que criou os pontos de cultura está por toda a América Latina hoje, mais forte que no Brasil. E já criou inclusive um Ponto de Cultura aqui, na ciudad Bolívar se não me engano… Agora, uma pergunta para fechar, importante do ponto de vista da investigação: quais são os autores mais importantes, as referências teóricas, tanto filosóficas, quanto para pensar a tecnologia como uma forma potente de se criar movimentos multitudinários?

A: Vou mencionar alguns colombianos. Para a ideia do desenvolvimento, por exemplo, tem o Arturo Escobar, eu não sei se vocês conhecem. Ele trabalha com universidades americanas como Chapel Hill, com o Michael Hardt em Duke. Arturo, Michael Hardt e outros pesquisadores como o Larry Goldberg tem seminários juntos que são muito interessantes. Tem um livro incrível que se chama “A invenção do terceiro mundo”, sobre como nasceu a noção de terceiro mundo, criada pelos Estados Unidos, e como a gente também a consumiu.

I: Como o orientalismo, não é?

A: exatamente. É uma escola crítica do modelo colonial tão importante quanto o orientalismo. Eu estou muito próximo de uma pesquisadora que se chama Eden Medina. Ela fez o estudo do sistema cybersyn, uma protointernet chilena desnvolvida nos anos 1970, uma pesquisa que explica o fênomeno do princípio ao fim. (…)

I: Eu fico pensando em algumas discussões que temos no Brasil, com o Lucas Bambozzi, por exemplo, porque ele sempre pensa na tecnologia de um ponto de vista muito pessimista, como o Paul Virilio e outros autores. Sempre olhando para o lado da dominação e do controle. Então, depois que o Gabriel indicar as referências, eu gostaria que vocês falassem um pouco das possibilidades positivas, da luz no fim do túnel que pode haver para a tecnologia, e que interessa muito para o ativismo.

G: Tem um artista que se chama Dmytri Kleiner, que escreveu o manifesto telecomunista, há uns 3 ou 4 anos atrás. Que é muito interessante, porque é como se ele fizesse uma revisão do manifesto comunista de Marx, colocando-o no terreno das tecnologias de comunicação. John Holloway tem um livro que se chama Crack Capitalism, e o Alberto Lopez Cuenca.

A: Outro autor interessante é o Michael Bawens, da P2P Foundation, que é interessante porque é o exemplo de um intelectual que também está propondo esquemas práticos, já que é para falarmos de positividade. Ele não tem uma visão somente crítica, mas cria uma fundação como a fundação peer to peer, que se propõe a transformar os sistemas de comunicação, produção intelectual e política no mundo. É muito inteligente, e está fazendo algo muito concreto.

G: Jaromil Rojo, um desenvolvedor de software integrante da Dyne Foundation.

A: E eu agora fiz a minha tese de doutorado sobre o bitcoin, que também é uma proposta ativa. Depois das grandes manifestações na europa contra os governos, depois que a gente falou tudo do que não gostava, não propusemos uma idéia. E uma idéia possível é o bitcoin, uma moeda eletrônica.

I: E você estava trabalhando com isso, ainda está? Pode falar um pouco sobre isso?

G: Estamos. Meu trabalho com Camilo ultimamente propõe pensar do problema da economia e da arte eletrônica, especificamente. E parte das coisas que estamos pensando e tentando analisar é como funciona o bitcoin, que é algo muito interessante, porque se trata de levar uma tecnologia, uma ferramente que já está inventada há muito tempo, como os P2P, como os torrents, e transformá-la em uma moeda. E é uma moeda que tem peso, que tem uma relevância e em torno disso os problemas tecnológicos, os problemas filosóficos e os problemas econômicos tem uma complexidade altíssima.

A: É tão forte que o governo de Nova Iorque vai começar a taxar o bitcoin, a cobrar impostos.

I: Isso foi criado no occupy?

G: Não, apareceu há uns 4 anos, quando alguém, que ninguém sabe quem é postou um paper na internet explicando como deveriam ser os algorítmos e lançou a primeira versão do bitcoin. E como é uma tecnologia aberta, foi apropriada por muita gente e foram surgindo várias versões de moedas baseadas no bitcoin. Teracoin, lightcoin

A: É um fenômeno muito interessante.

I: Porque para pensar o comum, temos que pensar a moeda, como trocar?

A: Exatamente, e para isso, o primeiro que temos fazer é reinventar o dinheiro, reinventar o valor. Não se pode apenas trocar isso por aquilo. Agora, como fazer isso, quem controla? É possível fazer uma moeda que não tenha controle dos bancos, ou dos países? Uma moeda internacional em rede?

(Fim da entrevista)

 

E aqui disponibilizamos um artigo escrito por Natacha Rena e Ana Isabel de Sá logo após esta entrevista para um congresso nas USP sobre NetAtivismo .