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O evento Cartografias do Comum é resultado da articulação entre o Espaço do Conhecimento UFMG e o grupo de pesquisa Indisciplinar da Escola de Arquitetura da UFMG. A mostra agrega uma série de atividades, como debates, oficinas, filmes, seminários e a exposição e foi totalmente realizado com a participação horizontal de grupos, coletivos e movimentos sociais de Belo Horizonte que pesquisam e atuam na construção do comum.

A potência transformadora das ações desenvolvidas por grupos culturais e sociais em Belo Horizonte pode ser sentida na prática, por meio de trabalhos e intervenções que ocupam os mais variados espaços da cidade. As pautas são diversas e nem sempre confluentes, incluindo temas como mobilidade urbana, expressões artísticas das ruas, gênero e culinária. Dentro dessa multiplicidade de visões, os coletivos compartilham de uma nova lógica de produção cultural e de participação política, orientada pelo princípio da horizontalidade, ou seja: sem hierarquias. Os aspectos que constituem essa forma de pensamento e os novos caminhos traçados por suas ações serão retratados na mostra “O Comum e As Cidades”, que nasceu a partir de discussões abertas com os coletivos.

Confira a programação completa aqui: http://www.espacodoconhecimento.org.br/?p=8813

Cartografias do Comum

Processos de auto-organização, horizontalidade e democracia real: na atualidade, há uma emergência, em escala global, de inúmeros processos de reordenamento da vida política e social. O que eles possuem em comum é o fato de buscarem a construção de novas plataformas de organização da vida em conjunto, que sejam capazes de fortalecer a democracia e instaurar a liberdade.
Escapando à lógica da ação governamental e dos mecanismos de mercado, esses processos são organizados pela multidão que move potentes práticas colaborativas, orientadas para a construção do comum.
E como a multidão produz o comum? Na multidão, as pessoas não se tornam iguais – elas mantêm suas diferenças, que são expressas de forma livre e igualitária, na prática da vida em conjunto.
A multidão não se confunde com o povo, que é próprio do Estado-nação. A noção de povo reduz toda a diversidade a uma identidade única. A multidão reúne múltiplas singularidades.
Multidão também não é massa, que é própria do mercado. As massas são homogêneas, uniformes. A multidão é colorida, composta pela diversidade de culturas, etnias, gêneros, formas de trabalho, modos de viver e de desejar.
Assim, é no exercício e no atrito de suas diferenças internas que a multidão descobre aquilo que a permite se comunicar, trabalhar, agir e sonhar em comum. São nesses encontros de corpos singulares e felizes, propiciados pela multidão, que surgem alternativas para a construção da liberdade e diretrizes mais igualitárias para a ordenação da vida. Assim, o comum não pode ser dado e definido por antecipação. Ele é o produto dos novos circuitos de colaboração e cooperação, acionados pelo trabalho e pelo afeto da multidão. Ele é fruto do exercício radicalmente democrático das singularidades e resulta de formas de pensar e agir que superam conceitos excludentes, como público/privado, indivíduo/coletivo, cultura/natureza, corpo/alma. O comum não é um objeto, mas um projeto da multidão. Para entender como é construído esse projeto da multidão, esta exposição busca mapear os lugares em que os processos multitudinários instauraram o comum. O propósito é dar a conhecer e cirar múltiplas formas de constituição do comum, no desejo pela criação de uma sociedade igualitária, aberta e inclusiva.

Cartografar é produzir conhecimento e novos modos de vida

Campos de futebol, ocupações e festas em inúmeros lugares: a construção do comum não é apenas utopia. Ela é real e imanente. Nesses espaços do comum surgem novos posicionamentos e práticas, que superam a oposição público/privado e subvertem relações de exclusão e segregação sociais. Para perceber a existência e a importância desses locais, é necessário olhar criticamente para o espaço e experimentar sua transformação. Cartografar os espaços do comum tem sido cada vez mais importante! Mais que uma forma de representar ou descrever lugares, a cartografia é um método de produção do conhecimento e de criação de novos modos de vida que auxilia a constituição da realidade. A cartografia aqui proposta pretende impulsionar a produção do comum, localizando transformações, acompanhando processos e criando percepções sobre as possíveis conexões entre o comum urbano e os novos modos de vida que ocorrem em um território.

Exposição aberta e em construção

Esta exposição pretende ser um lugar da produção do comum. Todo o conhecimento aqui produzido e exposto resulta de uma curadoria coletiva, da qual participaram os profissionais do museu e diversos grupos de pesquisa, indivíduos, coletivos artísticos e movimentos sociais. Além de pensar sobre a construção do comum pela multidão, também é objetivo da mostra questionar o papel das instituições acadêmicas e culturais neste processo. Por isso, tão importante quanto a exposição foi sua construção, que se baseou na troca horizontal (sem hierarquias) de saberes entre o museu, a universidade e os atores que participam de processos multitudinários na cidade.
Para alcançar esse propósito, foram experimentados novos modos de organização do trabalho. Utilizando a lógica das assembleias populares horizontais, foram realizadas reuniões que garantiram um processo participativo com decisões coletivas. O material expositivo foi construído em workshops abertos à participação de qualquer interessado. Ideias, propostas e soluções também vieram de grupos de discussão criados em redes sociais e do trabalho de campo, ocorrido em várias partes da cidade.
Para garantir a emergência de novas vozes, esta exposição não é um trabalho concluído. Ela pode se transformar com a sua contribuição.”

“Construção do espaço comum

O processo colaborativo teve o Espaço do Conhecimento e o Grupo de pesquisa Indisciplinar como “fios condutores” ou “agenciadores de uma curadoria coletiva”. “Realizamos tudo em reuniões livres para quem quisesse participar”, enfatiza Natacha Rena, professora da Escola de Arquitetura da UFMG e líder do grupo Indisciplinar. Natacha chama a atenção para o caráter democrático da construção, na qual a participação se dá de forma direta, sem intermediários. “Não é a democracia para todos, mas a democracia feita por todos. O comum do qual falamos é a democracia real, não a representativa com a qual estamos acostumados”, acrescenta.

Uma das principais atividades da programação é a exposição Cartografias do Comum, que funciona como uma espécie de mapeamento dos grupos e questões defendidas e levantadas por eles. Natacha Rena faz questão de frisar o caráter imediato e presente das ações empreendidas. “Não são utopias, já está acontecendo. Não se trata de um lugar a ser alcançado. Estamos cartografando, registrando iniciativas realizadas. A exposição retrata o conjunto de singularidades e tudo o que resulta delas neste momento”, pontua.

O diretor científico-cultural do Espaço do Conhecimento UFMG, René Lommez Gomes, acrescenta que o formato de desenvolvimento da mostra aponta para novas direções, nas quais parte do público deixa de ser somente um alvo da ação museológica, tornando-se um proponente e executor ativo, trabalhando em conjunto com todos os setores da instituição. “O papel do museu é muito mais o de servir de instrumento para que as pessoas se apoderem da linguagem museológica do que o de decidir o que e como fazer. Funcionamos como um nó de articulação. A ideia responde a uma necessidade de irmos além do simples ‘fazer para o público’ e incorporarmos o ‘fazer com o público’, num processo de diálogo aberto”, explica. “Muitas das pautas colocadas em questão na mostra não têm expressão forte na agenda cultural ’oficial’ da cidade, mas se mantêm ativas na ação dos grupos independentes. Com a realização de um evento com essas características surge a oportunidade, a brecha para que determinadas pautas ganhem mais visibilidade no interior das instituições. Este momento potencializa uma discussão direta com uma multidão de pessoas que vivem a cidade, e torna a instituição mais porosa e permeável a novas ideias e proposições”, conclui.”

Mais sobre o evento:
Dentro dessa multiplicidade de visões, os coletivos compartilham de uma nova lógica de produção cultural e de participação política, orientada pelo princípio da horizontalidade, ou seja: sem hierarquias. Essas são as bases da exposição Cartografias do Comum, resultado da articulação de coletivos culturais atuantes na cidade de BH.

As ações curatoriais e expográficas foram realizadas horizontalmente e aberto via editais e chamadas públicas, experimentando novos modelos curatoriais, alternativos ao modelo convencional atuando a partir de novos processos constituintes do comum. Pretende-se uma troca de modos de fazer desierarquizada entre universidade e sociedade acreditando que é urgente repensar as instituições a partir dos movimentos multitudinários globais que ganharam forma com maior intensidade no Brasil a partir das jornadas de junho de 2013. Portanto, é objetivo principal debater-construir ações que constituam novos processos em direção à democracia real, que aglutinem horizontalidade e decisão colaborativa aos processos participativos, inclusive dentro das universidades e dos espaços culturais. Para atingir estes objetivos adotamos formatos de reuniões assembleárias. Estas diretrizes serão conceituais e políticas, já apontando direções éticas que permeiam todo o processo, desde a concepção até a realização. Diversas ações e exposições estão previstas cruzando temas e grupos de trabalho.

Como parte interativa na abertura do espaço expositivo, criou-se um Atlas das Insurgências Multitudinárias no qual os visitantes poderão interagir auxiliando no processo de cartografia do comum em Belo Horizonte.