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David Harvey, um dos mais influentes pensadores marxistas da atualidade, expõe o papel central da urbanização na economia mundial

POR MARIANA SIQUEIRA E NATACHA RENA
Revista AU – Editora Pini
Edição 251 – Fevereiro/2015

Não foi a primeira vez que o geógrafo britânico David Harvey esteve no Brasil. Desde 2009, o professor da City University of New York vem ao País para participar de fóruns, seminários e congressos e para lançar seus livros, referências fundamentais para quem quer entender a lógica territorial do capitalismo.
Desta vez, Harvey veio lançar o livro Para entender O Capital: Livros II e III (Editora Boitempo) e participar de debates em Brasília, Recife, Fortaleza, Curitiba e São Paulo. “Muitas pessoas que se declaram marxistas leem apenas o primeiro livro e a primeira parte do terceiro livro”, provoca o professor, que considera o conteúdo negligenciado central para a compreensão dos desdobramentos espaciais do sistema econômico vigente.
Em sua conversa com a revista AU, em Brasília, David Harvey mostrou como a urbanização tornou-se essencial para o surgimento dos problemas econômicos e para a criação das soluções neste século 21, e como estamos vivendo um processo planetário de urbanização que afeta desde a macroeconomia até a qualidade de nossas vidas cotidianas. Sua afiada percepção do mundo contemporâneo coloca em perspectiva erupções urbanas de descontentamento como as jornadas de junho de 2013 no Brasil e levanta questões como a militarização do espaço urbano. As lutas pelo direito à cidade aparecem com muita evidência no recente livro Cidades rebeldes (Editora Boitempo), publicação que tem também textos de Ermínia Maricato, Mike Davis, Ruy Braga e Slavoj Zizek, e é inspirada nos protestos de junho de 2013.
Apesar da dura realidade que expõe, o geógrafo é categórico ao afirmar: “não tenho uma visão apocalíptica”. Mas também sugere: “veremos muitas lutas nas cidades em função da qualidade da vida cotidiana e num futuro não muito distante”. Parece que o futuro já chegou.

Em sua palestra, você comentou que, dos anos de 1970 para cá, aconteceu uma mudança na estrutura do capitalismo que colocou a urbanização na linha de frente do desenvolvimento econômico global. De que mudança estamos falando?
A acumulação de capital e a saúde da macroeconomia – para colocar nesses termos – é mais dependente da urbanização hoje do que era há 50 anos e, certamente, mais do que era há 100 anos. Tanto que um dos motivos principais pelos quais entramos na última crise teve tudo a ver com um projeto urbano que deu errado, baseado em financiamentos hipotecários via subprime (crédito de risco). Na mesma medida, a relativa recuperação dessa crise se deu graças a um gigantesco projeto de urbanização na China: meu palpite é que, hoje em dia, cerca de 50% do crescimento do país asiático se deva à construção de cidades em um ritmo frenético, e não só de cidades, mas de infraestruturas físicas que geram um novo equilíbrio na economia. É muito difícil dizer que os problemas que existiram neste século estiveram longe da urbanização. Na verdade, a urbanização foi central tanto para o surgimento do problema quanto para a criação da solução. Hoje, diz-se que os Estados Unidos saem de recessões “construindo casas e enchendo-as de coisas”. Depois da Segunda Guerra Mundial, o projeto de suburbanização teve um papel muito importante na absorção de capital e de mão de obra excedentes no país, um tipo de projeto que é bem análogo ao que os chineses estão fazendo agora. Foi, em parte, um projeto regional – desenvolver o sul e o oeste norte-americanos -, mas também um projeto urbano de reengenharia da região metropolitana de Nova York, com os esforços de Robert Moses. Então, nós já fizemos isso, mas agora o estamos fazendo em uma escala maior. Acho interessante olhar, em retrocesso, para a reconstrução de Paris feita por Haussmann, nas décadas de 1850 e 1860, que também foi um projeto para sair da depressão de 1847 e 1848. Mas isso foi feito em escala urbana. Moses ampliou o processo para o que podemos chamar de escala metropolitana, e agora estamos olhando para uma urbanização planetária. Precisamos apreciar isso historicamente, porque esse é o contexto no qual temos que pensar a urbanização nos dias de hoje.

O que é urbanização planetária?
Quem primeiro utilizou essa expressão foi Henri Lefebvre, no fim da década de 1960, e ele foi muito presciente ao perceber que o processo urbano que estava acontecendo na França naquela época deveria tornar-se global. Um dos fatos que observou foi a desaparição de modos de vida agrários e camponeses distintos, com o campo sendo absorvido pela cidade e as diferenças culturais entre eles diminuindo. Populações urbanas agora tinham segundas casas no campo e o campo estava produzindo comida para a cidade. O que vou argumentar é que essa distinção clara entre uma vida rural autossuficiente e uma vida urbana não autossuficiente está desaparecendo globalmente. Se olharmos novamente para a China, vemos a migração de populações rurais para as cidades industriais, além de uma crescente urbanização do campo. Na América Latina ainda existem grupos indígenas com modos de vida específicos, resistindo a serem absorvidos pela urbanização. Além disso, na medida em que a urbanização depende muito de empréstimos, o financiamento de projetos de desenvolvimento urbano está em fluxo ao redor do globo: há capital de Hong Kong por trás de projetos urbanos nos Estados Unidos, há capital saudita financiando projetos em Londres e, ao mesmo tempo, há capital excedente norte-americano ajudando a financiar aqueles projetos urbanos malucos na região do Golfo ou na Índia. Como o capital financeiro é muito fluido, ele pode viajar pelo planeta Terra e já não sabemos de onde o dinheiro está vindo. Essa é uma característica muito importante da situação atual, que a diferencia de épocas anteriores. Claro que ainda há muito capital nacional envolvido nesses projetos e creio que muitos dos empreendimentos imobiliários no Brasil, por exemplo, são financiados aqui, mas, ao mesmo tempo, há muito dinheiro brasileiro indo para fora também, porque existe a sensação de que financiar projetos em Miami pode ser mais seguro do que financiá-los aqui.

Poderíamos dizer que há características comuns – físicas, de desenho – na urbanização planetária?
Sim, com certeza.

Quais seriam?
Desde a década de 1970, vemos acontecer um significativo processo de desindustrialização em diversas partes do mundo. São os impactos da conteinerização, que fazem com que um bocado de espaço dentro das cidades seja liberado de seus usos anteriores – como portos, fábricas e galpões. Com isso, assistimos a um movimento muito ativo de recolonização desses espaços. Eu vivo em Baltimore, nos Estados Unidos, que foi um dos primeiros lugares a refazer seu porto. De repente, começo a viajar pelo mundo, e as pessoas me convidam para ver os portos de suas cidades: mas todos são tão parecidos! E, é claro, eles acabam sendo tomados por interesses comerciais. Barcelona é um desses casos: seu porto passou por uma série de ondas de renovação e, para mim, a primeira delas foi de bom gosto – mas, passo a passo, a comercialização foi tomando conta e agora o porto se parece com qualquer outro no mundo. Resultado: eu não tenho mais interesse em ir a Barcelona para ver aquilo! Acho também que muitas cidades optaram por aderir a grandes eventos – e eu temo dizer que Barcelona atingiu seu ponto alto logo antes de seus Jogos Olímpicos e, desde então, desce ladeira abaixo. Vemos uma tentativa de moldar a cidade ao redor do espetáculo, da arquitetura exclusiva e do cultivo de certa ideia de patrimônio. O consumo de massas dos anos de 1960 deu lugar ao que podemos chamar de mercado de nicho. Há, em alguma medida, uma celebração do multiculturalismo e da variedade étnica, gerando vizinhanças com características diversas: é a comodificação dos nichos de mercado, do patrimônio e das formas culturais. A urbanização que resulta disso tem qualidades muito diferentes daquela produzida nos anos de 1960.
Isso pode ser bem complicado, porque há mais disfarces…
Sim. Eu digo, meio brincando, que o movimento dos anos de 1960 combinava duas demandas, liberdade e justiça social, e que o capital respondeu dizendo “nós te damos a liberdade dentro do mercado, mas esqueça a justiça social”. E essa foi, de fato, a natureza do urbanismo resultante. Acho que a geração dos anos de 1960, que tanto falou sobre justiça social, esqueceu-se disso e tem se mostrado satisfeita com esse consumismo de nichos e com essa liberdade cultural. A vida nos bares, a expressão pessoal, a sexualidade – todas essas coisas – são hoje bem diferentes daquilo que eram 40 anos atrás.
Mas nada de avanço em justiça social?
Não, a justiça social foi pelo ralo, pode esquecer. Porque a liberdade que você tem está limitada a ter dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades e seus desejos, o que gera uma constante busca por recursos financeiros: mas penso que muitas pessoas acham isso bem vazio. Constitui o que Andre Gorz chamou de consumo compensatório, que promete te compensar por todas as más experiências que você tem no trabalho e em outros lugares.

Hoje, no Brasil, estamos assistindo a uma intensificação de grandes projetos gentrificadores em diversas metrópoles, via parcerias público-privadas e garantidas pelo instrumento Operação Urbana Consorciada presente no Estatuto das Cidades. Qual é sua visão sobre as PPPs?
Bom, eu vivi a ascensão desse esquema nos Estados Unidos e ficou bem claro que, nele, o público assume os riscos e o privado assume os lucros, em um claro desequilíbrio. Agora, as PPPs não precisam ser assim, se acontecem dentro de uma negociação que depende muito da relação entre o poder do Estado e o poder dos incorporadores. Mas o que eu gostaria mesmo de ver, no lugar das PPPs, é uma parceria bem mais ativa entre o Estado e os movimentos sociais. No Chile, me deparei com o Movimiento de Pobladores en Lucha, onde as pessoas estão construindo suas próprias casas. Mas para construírem com uma qualidade razoável por um preço razoável é preciso ter acesso à terra gratuita. Em outras palavras, é o acesso à terra que está destruindo essa possibilidade. Se o de terras e, assim, fornecer terra gratuita às organizações autônomas, ele iria resolver – ou não resolver -, mas faria um sério ataque ao problema da habitação, permitindo a produção de casas que, em vez de contar com 40 m² para uma família de oito pessoas, poderia ter o dobro, além da possibilidade de continuar construindo. Algo bem diferente da habitação de interesse social que vejo em tantos lugares da América Latina. Voltando às PPPs, elas são como quase tudo que o capital faz hoje em dia: são como os bancos – se algo der errado, o público irá socorrê-los -, e a mesma coisa com os incorporadores. E aí você se pergunta: que tipo de capitalismo é esse? Eu sempre pensei que o capitalismo se baseasse em correr riscos; e se você perder, perdeu, certo? Agora você não corre mais riscos já que eles estão socializados pelo Estado: é um tipo de comunismo capitalista, uma loucura! Temos o comunismo do lado errado! (risos)

O planejamento urbano moderno pressupõe uma série de regras e de controles ao crescimento urbano e sempre possuiu dispositivos para setorizar e segregar o espaço de alguma maneira. Há uma forte crítica a esse tipo de projeto moderno por possuir caráter centralizador, controlador, congelante das dinâmicas urbanas. Para os críticos, seria preciso imaginar processos de flexibilização para as cidades. Aqui surge um ponto fundamental para pensar o papel do urbanista e do arquiteto com relação aos processos de expansão e de transformação urbana: como atuar profissionalmente para garantir uma produção social do espaço mais justa?
As virtudes do urbanismo moderno, de várias maneiras, estão no fato de que ele via a cidade como um todo e, por isso, pensava a urbanização como um processo holístico, o qual tentava controlar. Logo, no fim da década de 1960, começo dos anos de 1970, aconteceu uma súbita crítica ao megaplanejamento. Desde então, o que temos são arquitetos com um bom sentido de urbanização – acho que um exemplo é o Rem Koolhaas, no início de sua carreira. Mas foram afastados daquela visão de urbanismo para uma visão de engenharia de contextos específicos, ficando menos preocupados com a cidade como um todo. Davam-lhes uma pequena parte da cidade e lhes diziam: façam algo espetacular, alguma arquitetura de assinatura, para que todos queiram vir ver. Assim, acho que a questão do que estava acontecendo com a urbanização como um todo foi meio que deixada de lado e, ao mesmo tempo, o poder dos financiadores e dos incorporadores tornou-se tão esmagador que essencialmente os arquitetos se tornaram seus agentes e pronto. Claro que alguns arquitetos progressistas fazem o que podem para inserir alguma noção de urbanização naquilo que estão fazendo. Brasília é um ótimo caso: você olha para o plano piloto e depois vai conhecer as cidades satélites para tentar entender a região metropolitana como um todo e pensar formas de fazer uma reengenharia em nome de justiça social ou da igualdade espacial. Mas de alguma forma não temos permissão para fazer essas perguntas – o clima é tal que fica muito difícil fazer essas perguntas e ter algum tipo de prática diante disso. Outro dia, um arquiteto me perguntou o que ele deveria fazer, e eu disse que, talvez, como arquiteto, ele devesse estar preocupado não apenas com construir edifícios, mas com a natureza do regime de direito à propriedade que dita que ele pode fazer as coisas de um jeito e não de outro. Por que não se tornar um defensor de formas alternativas de acesso à moradia? O que vocês têm aqui no Brasil é esse programa Minha Casa Minha Vida, que é um tipo de ideia horrível, porque sugere que a vida é o indivíduo em sua casa – e não é! As pessoas vivem em ambientes, e as qualidades desses ambientes são fundamentais. Na verdade, o tipo de filosofia do MCMV, como a casa própria nos Estados Unidos, destrói solidariedades de vizinhança e coisas do gênero. Assim, como arquiteto, você deve se preocupar com a natureza do regime de propriedade e encontrar maneiras de tentar inserir outras formas de acesso à moradia que não apenas aquela dada pela propriedade.

Como poderíamos inventar novos modos de vida e de produção de cidades?
Eu não acho que eu esteja, realmente, em uma posição para responder a essa pergunta: penso que ela tem de ser respondida pelas pessoas tomando suas vidas em suas próprias mãos e se mobilizando para fazer as coisas de uma maneira diferente. Eu vejo isso em movimentos sociais que tentam criar solidariedades de vizinhanças, economias solidárias. Há movimentos ao redor de segurança alimentar, além de várias formas de tentar descomodificar relações. Tendo a pensar na expansão da esfera de trabalho social que fazemos para os outros gratuitamente. É isso que costuma surgir em tempos de crises ou de catástrofes, podemos ver um bocado de apoio mútuo emergir quase instantaneamente nesses casos – junto a alguns comportamentos predatórios. Mas, para mim, a questão é tentar encontrar aquelas arenas de vida urbana onde práticas de trabalho social feitas para os outros, gratuitamente, tornam-se mais generalizadas. Por exemplo, o parque do local onde eu vivia em Baltimore era negligenciado pelo estado, e as pessoas da comunidade começaram a fazer sua manutenção por conta própria, coletivamente. Costumávamos limpar o parque duas ou três vezes por ano, enquanto outras pessoas plantavam árvores novas, coisas assim. Dá para imaginar um mundo onde o ambiente urbano é mais aberto para que esse tipo de trabalho aconteça. E, quanto mais as pessoas se envolvem, mais a vida social começa a vir à tona dessa noção de apenas minha casa, minha família e pronto, para algo que é mais enriquecedor cultural e politicamente.

Quando olhamos para a crise financeira de 2007/2008, vemos que foi uma crise urbana envolvendo financiamentos imobiliários e especulação. Alguns diriam que o Brasil pode estar no mesmo caminho, formando, pouco a pouco, sua bolha imobiliária. Você diria que esse processo é a cartada final de uma economia capitalista antes do seu colapso?
Não, fico bem nervoso em dizer que a coisa toda vai entrar em colapso: não tenho uma visão apocalíptica. Acho que o que isso quer dizer é que há um bocado de estresse dentro da dinâmica capitalista e que a reorientação de um monte de fluxo de capital para investimentos urbanos, com jogos especulativos, sugere que outras formas de investimento não estão indo muito bem, não estão sendo muito lucrativas. Isso leva a um tipo de definição capitalista da urbanização que é insatisfatória para crescentes proporções da população. E o que vemos, é claro, são erupções desse descontentamento nas ruas que, em geral, são desencadeadas por fatos como a tarifa de ônibus, em São Paulo, ou um parque em Istambul. São descontentamentos com a qualidade da vida urbana, em especial com itens como transporte, superlotação e superutilização dos serviços, ao ponto de eles colapsarem. Enquanto isso, o capital vai em frente com megaprojetos como construir novos estádios e coisas desse tipo, e todo mundo meio que pensa que aquilo é bem irrelevante comparado com o que está acontecendo em nossas vidas, em nossas vizinhanças. Claro que o capital diz que isso vai criar dois, cinco, 20 mil postos de trabalho, mas quando você vai ver, no final, não criou emprego algum. Por isso, acho que vamos ver muitas lutas nas cidades em função da qualidade da vida cotidiana e num futuro não muito distante. Já as estamos vendo e, acho, vão se tornar mais frequentes e, em alguns instantes, devem se tornar violentas. Além disso, temos o problema de que a polícia, a militarização do espaço urbano, assume formas que nos permitem ver que os instrumentos de repressão das lutas urbanas já estão colocados. Claro que uma das questões agora é o uso exagerado desses instrumentos – até que ponto os problemas no Brasil não foram resultado da reação desproporcional das forças policiais? Acabamos de ver outro exemplo no incidente em Ferguson, Missouri, onde a morte de um jovem negro causou protestos; de repente, a polícia entrou em cena como se estivesse invadindo o Iraque. Foi espantoso… o que está acontecendo? Sua amigável força policial sai daquela forma para lidar com um protesto? Acho que aquilo chocou muitas pessoas, pensar que esse é o tipo de mundo em que estamos vivendo hoje. Vocês aqui no Brasil também passam por experiências assim com as remoções forçadas de favelas, e coisas do tipo… é uma questão real e, repito, acho que vamos ver lutas bem desagradáveis em um futuro não muito distante.

 

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